- Revista “Balas”, bom dia. Fala Glória Torres em que posso ser útil? – a secretária da revista criminal mais famosa em Portugal iniciava mais um longo dia de trabalho quando Vicente Machado rompeu por toda a longa recepção da editora – Ouça, eu já lhe disse que precisamos dessa noticia para ontem. É a bomba do ano…
Enquanto esperava que Glória desligasse o telefone Vicente olhava para as dezenas de molduras que enchiam a sala cheias de manchetes de aniversário, de ano novo, de Natal… Parecia uma feira de gado em que cada agricultor “vendia” as suas vacas, bois…através de uma foto. E a raiva que dominava o inspector fazia – o querer destruir tudo aquilo. Desde que iniciara a sua carreira que percebera que os jornalistas são os maiores amigos dos criminosos. Mas aquela noticia do dia era a gota de água.
- Óptimo! Ainda bem que nos entendemos. Até às 16h00 não se esqueça…
Vicente saltou como se as suas longas pernas se tivessem tornado um autentico elástico: Glória acabara de desligar o telefone.
- Tenho de falar com a directa da revista! – reclamou Vicente pousando com violência a revista que trazia nas mãos.
A secretária pouco ou nada ligou á má educação e abrindo a agenda disse:
- Tem reunião marcada? Se não, sempre podemos marcar para Terça às 17h00. O que acha?
- Não está a perceber. Eu quero e vou falar com a directora deste monte de lixo e é agora! – Vicente estava visivelmente alterado.
- Lolinha já falou com o dono da empresa de enlatados? Aquela que lançou a publicidade ofensiva? – Isabel, directora da revista, acabara de sair da sua sala e dirigia – se agora á secretária sem revelar os olhos que se encontravam por detrás de uma enorme montanha de papéis que trazia consigo.
- Ainda bem que aparece!
- Oh doutora eu tentei…mas este senhor está fora de controlo!
- Ai sim? E porquê? – perguntou Isabel
- Precisamos de conversar! – respondeu Vicente
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- “Policia Judiciária ignora caso de Luís Marinho” - leu em voz alta o inspector
Ele e Isabel encontravam – se já na pequena sala luxuosa da direcção:
- Não quer que releia pois não? – perguntou Vicente
- Inspector por amor de deus…Não estava á espera que não informássemos os nossos leitores do facto de a Policia Judiciária ter esquecido este caso, pois não?
- Esquecido? Nós estamos a trabalhar neste caso. Aliás: daqui a duas horas tenho de estar em Espanha.
- Óptimo! Vocês fazem o vosso trabalhinho e nós fazemos o nosso. Nada mais simples que uma soma de 2 + 2.
- Eu quero lá saber do vosso trabalho. O vosso dever é informar correctamente quem vos lê… - Vicente dirigiu – se para a porta – Têm até amanhã para desmentir a noticia.
- Porquê? Vai nos processar é?
- Se for preciso…
PUM! O estrondo da porta a bater ecoou por toda a editora. Isabel olhou – se ao espelho e correu para a recepção.
- Inspector Machado?
Vicente parou!
- Tenho um contrato para estabelecer consigo… - sugeriu Isabel.
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- Nem acredito que aceitei a sua proposta. Quando o director souber despede – me nesse instante – burburava Vicente enquanto fechava a porta do carro. Estavam frente – a – frente com o local do crime. A viagem tinha sido um autentico tédio. Isabel e Vicente nem trocaram uma única palavra. E o inspector ainda não acreditava no contrato que acabara de “assinar”: Isabel desmentira a noticia, se ele a deixasse acompanhar de perto os trabalhos da PJ.
- Vai ser uma mais valia para as duas entidades… - dizia Isabel – Estou já a imaginar o titulo da próxima edição. Uma coisa em grande…com letras grandes e gordas…a cor de rosa. Não, não! A vermelho, cor do sangue…
- CHIU! – Vicente voltara – se de novo para Isabel – Quis assinar um contrato, assinamos o contrato. Quis vir comigo, veio comigo. Agora peço lhe um favor: cale – se e deixe me trabalhar!
- Eih tão novo e já tão stressado. Faz lhe mal à pele inspector.
Vicente preferiu ignorar o comentário. Dentro de poucos minutos iria estar na mesma sala que Lourenço Bernardes: Seleccionador Nacional.
- Boa tarde. Vicente Machado, sou inspector da Policia Judiciária! Tenho um inquérito marcado com o doutor Lourenço Bernardes.
- Sim sim…o doutor está na sala de troféus à sua espera. Siga – me – disse a funcionária
- Espere…. – Vicente fez uma pausa voltando – se para trás – Onde pensa que vai Isabel?
- Ao inquérito claro inspector. Lembra – se: contrato?
- Eu vou repetir apenas mais uma vez isto: o nosso contrato não engloba meter – se em assuntos que são exclusivos da PJ. Se não se importa, dê meia volta e espere por mim no carro. Vamos! – disse dirigindo – se à empregada que assistia à cena
- Faneca sem Sal! – exclamou Isabel.
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- Boa Tarde. Vicente Machado, Policia Judiciária
- Muito Boa tarde. Penso que são dispensáveis as apresentações da minha parte.
- Estou a ver que tem grande confiança na sua fama treinador.
- Nada disso. O Inspector é que deve ter investigado tudo sobre mim antes de me interrogar certo?
- Nem mais…Faz parte do meu trabalho
- Claro! E então? O que me quer? – questionou Lourenço
- Como era a sua relação com o Luis?
- Com o Luís? Eu e ele tínhamos uma relação não muito comum neste universo…
- Anormal? Como assim?
- Tinhamos uma relação de amigos, e não de treinador – atleta! Costumava – mos falar sobre tudo…
- O Luís contava – lhe coisas do foro intimo?
- Sim. Quando ele se separou da Livia veio me pedir conselhos e tudo…Era um óptimo rapaz…
- Então suponho que sabia da intenção do Luis abandonar a selecção depois do mundial…
- Desculpe? – Lourenço não conseguiu esconder a surpresa
- Vai me dizer que não sabia?
- hum…por acaso não tinha conhecimento disso- balbuciou o seleccionador.
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- Então? Como correu? – perguntou Isabel quando viu o inspector dirigir – se para o carro
- Eu não lhe disse para esperar no carro?
- A minha mãezinha também me disse para eu ser médica e eu virei jornalista.
- Para mal dos meus pecados…
- E então? Não me vai dizer como correu? O que descobriu? O seleccionador é suspeito?
As inquietações de Isabel foram interrompidas por Sebastião:
- Hi! Como vai Vicente?
- Sebastião, que surpresa…
Os dois colegas cumprimentaram – se, mas Vicente depressa se afastou: o cheiro intenso a café do perfume do agente era cada mais insuportável.
- Quem é o Pokémon? – perguntou incrédula Isabel. Nunca tinha visto tão mau gosto a nível de vestuário.
Sebastião usava de novo cores berrantes e um enorme cachecol que lhe apertava o pescoço como se tentasse o enforcarmento.
- Desculpe?
- Nada colega. Não ligue aos comentários desta senhora… - disse fitanto com raiva Isabel – Podemos falar no carro?
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- Peço 2 vezes desculpa. A primeira por termos de falar no carro. E a segunda….
- Por causa da sua colega jornalista. Não há problema! – disse Sebastião
- Como adivinhou que era jornalista?
- Topo – os à distância meu caro…
- Bem, acho incrível. Para um agente que não convive muito com a realidade social, conseguir distinguir um jornalista é um óptimo talento.
- Nem diga nada inspector…Bem e então? Como está a correr o caso?
- Acho que está a correr bem…Interroguei agora o seleccionador da equipa.
- E então? Suspeito?
- Hum não sei… O Luis confiava – lhe tudo. Calcule que até falavam da vida intima…
Fez se silêncio no carro… Vicente voltou á carga:
- Mas o tipo negou saber da intenção do Luis abandonar a equipa no final do Mundial.
- E acha que estava a mentir?
- Tenho a certeza. Eu vi no olhar, e na forma como ficou atrapalhado…
- Mas qual era a razão para esconder tal facto á PJ?
- Não sei….mas é isso que vou descobrir… já… - disse abrindo a porta do carro.
- Já se pode entrar ou os Sherlocks vão continuar a conversa? – perguntou Isabel enquanto viu Sebastião emergir de dentro do carro.
- Onde vai Machado?
- Tenho de falar com o outro guarda redes da Selecção. Ele há de saber explicar – me tudo…
- E acha que é lá que vai encontrar as respostas? – perguntou o agente
- Duas cobras não vivem juntas no mesmo buraco inspector… - sibilou a jornalista.
E não é que tinha razão?

